30 abril, 2008

Há um grande livro na praça, é Pós-Guerra

Publicado em 30/04/2008

Saiu um daqueles livros que entram na vida de quem os lê e não saem mais. É Pós-Guerra – Uma história da Europa desde 1945, do professor anglo-americano Tony Judt. São 848 páginas (1,2 kg) com o majestoso painel de um mundo que em pouco mais de meio século passou da ruína ao controle de mais de um terço da produção mundial. A Segunda Guerra custou à Europa 36 milhões de vidas e desalojou 30 milhões de pessoas. Hoje a União Européia forma um bloco de 500 milhões de cidadãos livres, educados e prósperos, capazes de fazer do século XXI sua hora e vez.

Pós-Guerra será útil para quem não viveu o período, pois passa longe da matraca das falsificações produzidas durante a Guerra Fria. Judt vira pelo avesso diversas certezas. Stalin poderia invadir a Europa? Difícil. Em 1946 o generalíssimo cometeu um dos erros de sua vida. Achava que a guerra era inevitável, mas teria os Estados Unidos de um lado, a Inglaterra de outro e ele de fora. Entre 1945 e 1947, a União Soviética baixou seu efetivo militar de 11,4 milhões para 2,9 milhões de soldados. Socialismo? Não houve esse tipo de coisa, o que existiu foi o Estado ditatorial leninista.

Judt parece um malabar da política, da economia e da cultura. Vai da filosofia (o escritor francês Jean Paul Sartre chamava a violência comunista de “humanismo proletário”) ao cinema (A ponte do Rio Kwai é um sinal de que os ingleses passaram a ver a guerra de outra forma). Quando joga números no meio da narrativa consegue o improvável: aumenta o prazer da leitura. Algumas vezes surpreende: A guerra destruiu apenas 20% da capacidade industrial da Alemanha e tanto ela quanto a Itália, a França, o Japão saíram com mais máquinas e equipamentos do que tinham antes do conflito. A Alemanha administrou a França mandando para lá apenas 1.500 funcionários. (Em 1953 a máquina de propaganda do governo americano tinha 13 mil empregados.)

Pós-Guerra conta a história de duas Europas. A Ocidental, vigorosa, e a socialista, estagnada. Em 1957 só 2% das casas italianas tinham geladeira. Em 1974 eram 94%. Segundo Judt, diversos fatores contribuíram para o renascimento europeu, da ajuda americana à liberalização do comércio. Mesmo assim, decisivos mesmo foram o otimismo e o leite grátis. Mais gente, mais trabalhadores, mais produtos e mais consumidores transformaram as cidades arruinadas na Europa moderna.

O livro tem dois capítulos excepcionais. “O fantasma da Revolução” conta os anos 60 da juventude do Ocidente. O seguinte, “O fim de caso”, narra os 60 do outro lado do Muro. Judt desmonta a mitologia sessentona com muita erudição, alguma ironia e nenhuma piedade. Ele gosta mais da garotada de Praga do que dos cabeludos de Paris. Sua conclusão: “Os Sessenta acabaram mal em todos os lugares.”

Dois personagens do fim do século estão muito bem retratados. Margaret Thatcher, por quem Judt tem uma ponta de admiração, mesmo detestando sua política, e Mikhail Gorbachev, a quem maltrata, gostando do que fez. O governante soviético admitia que tocassem rock, desde que fosse “melodioso, coerente e bem executado”. “Era isso que Gorbachev queria, um comunismo melodioso, coerente e bem executado”, diz Judt.

Elio Gaspari é jornalista.

Marcadores: , , , ,

28 abril, 2008

SÉRIE: A demanda por comida na China - 1

Segunda-feira, 28/04/2008

A maior população do planeta faz compras em verdadeiros templos do consumo. Na China, centenas de milhões de novos consumidores demandam por comida.




Marcadores: , , , , ,

27 abril, 2008

A era do euro


Ao bater novo recorde, na última semana, o euro reafirmou sua importância no panorama monetário mundial e aplicou mais um baque ao dólar. No mercado internacional, a moeda européia chegou a ser cotada a US$ 1,60, o maior valor em sua história - praticamente o dobro do alcançado em 2000, quando atingiu o seu ponto mais baixo, US$ 0,82.

Há 10 anos, em maio de 1998, a moeda foi anunciada como a nova referência monetária da União Européia (UE). Para os europeus, o euro inicialmente obrigou muitas economias a fazerem ajustes e levou, em alguns casos, a aumentos exagerados de preços em alguns países, gerando protestos de consumidores.

Hoje, a divisa fortalece a relação de negócios e a economia dos países da zona do euro, que não têm mais as perdas cambiais em transações internas. Mas há desafios. Exportadores se queixam da forte valorização da moeda. Alegam que seus produtos perdem em competitividade, conta o conselheiro de política e economia da delegação da Comissão Européia no Brasil, Christian Burgsmüller.

- Os produtos europeus se tornam mais caros, mas a importação de muitos itens ficou barata. A alta do petróleo, por exemplo, não tem muito impacto na Europa até o momento, da mesma forma que ocorre no Brasil com o real forte. Já nos Estados Unidos é motivo de preocupação - avalia Burgsmüller.

Taxa de juro maior estimula valorização

Para o Brasil, a vantagem de haver uma moeda européia forte é de trazer dividendos maiores quando o país exporta a essa região. Ao converter euro em dólares, o país ganha reservas.

Burgsmüller diz que a força da moeda européia se deve, em parte, à desvalorização do dólar com a crise norte-americana. Mas a recessão nos EUA não explica sozinha a valorização. Atualmente, a taxa de juro principal na União Européia está em 4% ao ano e nos Estados Unidos, em 2,25%. Essa diferença contribui para a alta do euro.

Presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior, Roberto Segatto ressalta que países com reconhecido desenvolvimento tecnológico, como Alemanha e Holanda, seguem ganhando mercado e ampliando a importância do euro ao colocarem seus produtos em mercados diversos, como o asiático. Ao venderem seus produtos, empresas fazem da moeda uma referência com mais peso no mundo.

- O euro cresce, também, pelo próprio mérito da UE, e não somente pela crise americana. Ao negociar com a Europa, cada vez menos os empresários fecham contratos em dólar - afirma Segatto.

No Brasil, com o real seguindo o mesmo caminho de valorização do euro, a contabilidade termina normalmente em ganhos, avalia a mestre em economia Nora Zygel, da Fundação Getulio Vargas. Nora ressalta a valorização ainda maior do real.

- Para comprar da Europa não ficou assim tão mais caro, e os produtos brasileiros tampouco deixaram de ser competitivos. Nas vendas para a UE, se recebe em moeda forte, reforçando as divisas nacionais, depois convertidas em dólares.


Trajetória inversa
O comportamento das moedas da União Européia e dos Estados Unidos em relação
ao real:
Euro
1º/2/1999 R$ 2,22
2/1/2000 R$ 1,80
2/1//2001 R$ 1,84
2/1/2002 R$ 2,08
2/1/2003 R$ 3,65
2/1/2004 R$ 3,63
2/1/2005 R$ 3,61
2/1/2006 R$ 2,76
2/1/2007 R$ 2,83
2/1/2008 R$ 2,61
Variação em nove anos +17,57%
Dólar
1º/2/1999 R$ 1,96
2/1/2000 R$ 1,79
2/1//2001 R$ 1,94
2/1/2002 R$ 2,30
2/1/2003 R$ 3,52
2/1/2004 R$ 2,88
2/1/2005 R$ 2,65
2/1/2006 R$ 2,34
2/1/2007 R$ 2,13
2/1/2008 R$ 1,77
Variação em nove anos -9,69%
Fonte: Banco Central

16 abril, 2008

Pato Branco tem um veículo para cada dois habitantes

O município possui praticamente um carro para cada dois habitantes. Em um ano foram adquiridos 1.848 carros e 989 motos

Dados da 5ª Ciretran mostram um aumento de 2.837 veículos na frota de Pato Branco no período de março de 2007 a março de 2008, cerca de 9,97%. Em março de 2007 a quantidade de veículos no município era de 28.865 e no período de um ano subiu para 31.702, entre carros, motos e caminhões novos ou usados transferidos para Pato Branco.
Como a cidade possui cerca de 68 mil habitantes, existe praticamente um carro para cada dois habitantes. No mesmo período, dentro do total da frota, aumentou de 4.437 para 5.426 o número de motos.
O chefe da 5ª Ciretran, Amauri Antônio Soares, afirmou que além dos carros novos, muitas pessoas de fora acabam se mudando para Pato Branco para trabalhar ou estudar e transferem o veículo para o município. Ele atribui o aumento da frota devido à facilidade nas linhas de crédito e a estabilidade da moeda (Real).
Segundo Soares, o aumento de 989 motos, em um ano, é pela economia que elas representam e a fácil aquisição. “Com a economia no vale transporte no mês, praticamente dá para o trabalhador pagar a prestação da moto”, afirmou.
Com relação aos acidentes no perímetro urbano de Pato Branco, Soares afirmou que a maioria ocorre devido à imprudência dos motoristas, que não respeitam as normas de trânsito. De acordo com Soares, dos carros retidos pela Polícia Militar e encaminhados a 5ª Ciretran, a maioria é pela falta de documentos de uso obrigatório, características adulteradas (rebaixados) ou pelos condutores não serem habilitados, principalmente motociclistas.

Dados da 5ª Ciretran apontam um aumento de 2.837 veículos na frota de Pato Branco em um ano
Março de 2007 - 28.865 veículos
Março de 2008 - 31.702 veículos
Acréscimo de 9,97%

Marcadores: , , , ,

14 abril, 2008

Escândalo à moda gaúcha

Embora seja ignorado pela imprensa do Sudeste, o vento político provocado no Rio Grande do Sul pela CPI do Detran, instalada na Assembléia Legislativa de Porto Alegre a partir das ações da Polícia Federal, sopra tão forte quanto o minuano pelo Pampa gaúcho.
O “silêncio retumbante” no Sudeste talvez se explique pelo fato de o escândalo, um desvio de dinheiro público calculado em quase 45 milhões de reais, em um período de cinco anos, ter como causa mais provável a formação de caixa 2 de campanhas eleitorais, notadamente do PSDB. Eventualmente pode ter propiciado o enriquecimento ilícito de alguns dos atores. Em frase que junta práticas políticas do século XXI com ensinamentos do Padre Vieira (século XVII), o “dinheiro não contabilizado” nem sempre passa das mãos por onde passa.
O esquema foi iniciado em 2003 e desmontado pela Polícia Federal em novembro de 2007. Segundo o Inquérito da PF, o Departamento de Trânsito contratou, sem licitação, uma fundação, a Fatec, ligada à Universidade Federal de Santa Maria para aplicar as provas teóricas e práticas da carteira de habilitação.
Quem mais lucrou com o contrato foram as empresas ligadas à família de Lair Ferst, um dos coordenadores da campanha da atual governadora do estado, a tucana Yeda Crusius. Duas empresas da família Ferst receberam, juntas, mais de 23 milhões de reais. Lair Ferst integrou a direção da vitoriosa campanha do PSDB para o governo do estado, em 2006. Em dezembro de 2007 estava entre os 13 presos apanhados no arrastão da Polícia Federal.
Há mais gente envolvida da base aliada da governadora. Na época em que a roda da fortuna começou a girar, o deputado José Otávio Germano, do PP, era o secretário de Justiça ao qual está subordinado o Detran. Em 2007, com o novo governo, foi estabelecido outro contrato com a Fundae, da mesma cidade. Com a Fatec e a Fundae, o contrato que custava cerca de 900 mil reais por mês chegou perto da casa dos 2 milhões de reais mensais.
Em março, ao encaminhar o inquérito ao Ministério Público Federal, a PF pediu o indiciamento de 39 pessoas, incluindo deputados e secretários de estado que dispõem de foro privilegiado. Os crimes apontados são os de formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva e peculato, entre outros. Todas elas estão sendo chamadas a depor na CPI do Detran, presidida pelo deputado Fabiano Pereira, do PT.
O episódio mostra o vôo curto e desajeitado da ética tucana. No Sudeste o PSDB acusa. No Sul se defende das denúncias de corrupção. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.

Marcadores: , , , , , ,